Relato Real
Dossiê Negro fantasmas, fenómenos inexplicáveis, mistérios do mundo, paranormalTrabalho numa morgue
Trabalhei durante dois anos numa morgue.
Era um trabalho frio no sentido literal e emocional. Ao fim de alguns meses, tudo se tornava mecânico: conferir documentos à entrada do corpo, validar a hora, a causa da morte, confirmar etiquetas, abrir registo e encaminhar para a câmara frigorífica. Nada de especial. Nada de pessoal.
Nessa noite, por volta das duas da manhã, estava sozinho no turno. Recebi um corpo feminino, cerca de quarenta anos. Tinha identificação completa. Segundo o relatório, fora encontrada morta à beira de um caminho pouco frequentado. Sem sinais imediatos de violência visível. Um caso normal.
Cumpri os procedimentos como sempre. Abri o registo de entrada no sistema, aquele que depois sincronizava com a folha de Excel usada para a gestão da câmara fria. Empurrei a maca até à porta metálica e abri-a.
Lá dentro estava um corpo.
Era uma mulher.
Na casa dos quarenta anos.
Com o mesmo rosto.
O mesmo cabelo.
A mesma expressão imóvel.
Era igual à que eu tinha na maca.
O cérebro recusou aceitar o que os olhos viam. Fechei a porta de imediato, larguei a maca e saí da sala. Fui até à recepção, tentando racionalizar. Erro meu. Cansaço. Algum corpo antigo que eu não reconheci. Qualquer coisa que não fosse aquilo.
Esperei mais de uma hora.
Por volta das três e meia da manhã, voltei. A porta da câmara fria estava aberta, exactamente como eu a tinha deixado. Lá dentro não havia corpo nenhum.
Apenas o silêncio metálico do frio.
Coloquei o corpo que estava na maca na câmara, fechei a porta e voltei para o computador para terminar o registo. Quando comecei a introduzir os dados no Excel, o sistema fez um cruzamento automático com entradas anteriores.
Apareceu um registo de três dias antes.
Mesma mulher.
Mesma identificação.
Mesma idade.
Ao lado do registo havia uma nota manual, curta, sem assinatura:
“Saiu sozinha às 4 da manhã.”
Não houve falhas no sistema. Não houve relatório de erro. O registo estava ali, como qualquer outro.
No dia seguinte pedi a demissão.
Nunca mais voltei a trabalhar naquele ramo.
Algumas portas, quando se abrem, não deviam ser fechadas à força.
E outras, quando se abrem sozinhas, não deviam ter aberto de todo.
