Relato Real
Dossiê Negro fantasmas, fenómenos inexplicáveis, Mistérios, paranormalO Turno da Madrugada
Nunca acreditei em nada disto.
E não digo isto como defesa, digo como facto. O meu trabalho não permitia fantasias. Turnos longos, luz branca, procedimentos repetidos. Tudo tinha um lugar, um horário, uma etiqueta.
Naquela noite estava sozinho.
Era perto das duas da manhã quando deram entrada a um corpo. Homem, meia-idade, sem documentos. Nada de estranho até aí. Conferi os papéis, a hora, a causa preliminar da morte. Tudo normal. Demasiado normal.
Levei o corpo para a sala fria. O barulho da porta metálica a fechar ecoou mais do que devia. Lembro-me de pensar nisso, como se o espaço estivesse maior do que o habitual.
Quando comecei o registo final, reparei num detalhe que me fez parar.
A etiqueta presa ao pulso não correspondia ao número da ficha. Troca simples, acontece. Fui confirmar ao computador.
O ficheiro não existia.
Voltei ao corpo. A etiqueta continuava lá, com um código que não aparecia no sistema. Pensei que fosse erro informático. Anotei à mão e segui.
Foi aí que ouvi a respiração.
Não foi um suspiro dramático. Não foi um gemido.
Foi ar a entrar e a sair, lento, controlado, como alguém a dormir.
Afastei-me um passo. O corpo não se mexia. O peito não subia. Mesmo assim, o som continuava.
A primeira reação foi lógica: stress, cansaço, isolamento. O cérebro prega partidas. Abri a porta da sala fria. O som parou.
Fiquei ali uns segundos, à espera. Silêncio.
Fechei a porta.
A respiração voltou, mais próxima. Não vinha do corpo. Vinha de trás de mim.
Virei-me de imediato. A sala estava vazia. As bancadas limpas. As gavetas fechadas. O som continuava, agora irregular, como alguém a tentar controlar o pânico.
Disse em voz alta que estava sozinho. Não sei porquê. Talvez para ouvir uma voz humana.
Foi então que o corpo abriu os olhos.
Não de repente. Não como nos filmes.
As pálpebras simplesmente deixaram de estar fechadas.
Os olhos não focavam. Olhavam através de mim, para algo atrás.
A etiqueta no pulso caiu ao chão.
Peguei nela mais tarde. Quando tudo acabou.
O código tinha desaparecido. Estava em branco.
Registei o incidente como falha técnica. Ninguém questionou. Ninguém quis detalhes. O corpo foi removido ao amanhecer.
Dias depois, procurei o registo manual que fiz naquela noite. Não estava no arquivo. A folha tinha sido arrancada.
Ainda trabalho lá.
Nunca mais ouvi respiração nenhuma.
Mas, às vezes, quando passo pela sala fria, sinto que alguém está a reter o ar, à espera que eu repare.
E eu continuo a andar.
Porque sei que, se ouvir de novo, desta vez não vai parar quando abrir a porta.
